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Tecidos, cores e estampas das roupas africanas

(Foto de capa - Crédito:Jacek_Sopotnicki/istock)

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A força da linguagem visual desta ancestralidade

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Muitas culturas ao longo da história da humanidade atribuíram significados às cores e desenhos, porque essa era a linguagem para registrar a percepção humana do seu ambiente. A percepção do comportamento dos animais, do crescimento das plantas, das mudanças de estações, do céu e, claro, a percepção de nós mesmos e da nossa vida em bando, em tribo, em comunidade.

Mas nas culturas africanas, a força da linguagem visual não verbal é uma característica notável.

Talvez pela profunda ancestralidade de suas raízes, os desenhos das culturas africanas tenham se aprimorado por longas tradições para representarem a imagem das coisas com tanta beleza e criatividade.
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african-2197414_640 A sofisticada combinação de cores é uma das marcas da moda africana (Imagem de jason sackey por Pixabay)

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Mas quando falamos dos símbolos, é a complexidade de seus significados que encanta. Eles falam de qualidades humanas, de comportamentos culturais e até mesmo do mistério contido nas perguntas sobre a fonte da vida e sobre a existência do universo.

Alguns símbolos são quase proverbiais, quando sua figura representa uma crença para falar de um conhecimento que ensina sobre um perigo, por exemplo.

Então, justamente porque na moda a beleza da coleção está nas formas das roupas e acessórios, em suas cores e estampas, é dessa linguagem visual não verbal que queremos falar neste segundo texto da série sobre a influência da cultura africana na moda brasileira.

Um viva à inesgotável beleza africana

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Todos os paíse africanos já estão conectados à aldeia global, em maior ou menor escala, mas suas tribos e etnias locais ainda preservam a cultura de tradições muito antigas, com suas práticas de comportamento social e técnicas de produção.

Neste contexto, estudar a conduta social do vestir e a produção das roupas de tantas tribos e etnias é o mesmo que se deparar com um universo de saberes praticamente inesgotável.

Começando pela produção dos tecidos, a tecelagem manual é comum a quase todas as culturas tribais africanas, mas cada uma delas preserva técnicas locais para plantar, cardar, fiar, tingir e finalmente tecer.

Cada uma delas também tem uma cultura local para caracterizar roupas masculinas e femininas, a distinção entre jovens e velhos, casados e solteiros, entre plebeus e nobres, senhores e servos.

Por tudo isso, podemos supor que os tecidos e a forma de vestir são quase uma segunda pele para os africanos, uma vez que são uma representação visual da sua personalidade social perante a tribo e perante ao mundo.
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nigerian-5169012_1280-1 Traje nigeriano. As roupas africanas descrevem quem é a pessoa que está vestida e falam também dos costumes da sua comunidade. (Créditos Lawrence Olawale-Roberts Pixabay)

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A qualidade do tecido, as cores, a narrativa dos desenhos e também dos símbolos de suas culturas estampados nas roupas, contam para o mundo quem está vestindo aquela roupa. Desde informações sobre a hierarquia social e o estado civil até características pessoais como ser rápido, ágil, forte, etc.

Inicialmente, o viés desta investigação era procurar uma síntese para esta forte identidade da linguagem visual africana, que é tão marcante na memória de todos nós.

Mas isso se mostrou impossível tamanha a diversidade de estilos que cada cultura criou para expressar seus costumes e tradições.

Tamanha a beleza e a originalidade dos tecidos, roupas e acessórios criados por cada uma das tantas tribos espalhadas por todo o continente africano!

Diante deste desafio, a decisão foi escolher apenas algumas amostras desta imensa riqueza, mas nos deter ao máximo em mostrar a beleza de cada uma delas.

Viva a riqueza e a abundância de todas as culturas tribais africanas! E um viva ainda mais especial à originalidade e singularidade da cultura de cada uma delas!!!
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iStock-645023368 Materiais orgânicos como a madeira, conchas, búzios e a palha são tradicionais na arte e no artesanato africano (Crédito:Africanway/Istock)

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Belezas africanas para vestir

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Bogolan

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O tecido Bogolan é uma tradição do grupo étnico Bambara. Os povos Bambara vivem em sua maioria em Mali, mas também na Guiné. A tradição têxtil destas tribos remonta a mais de mil anos.

A palavra Bogolan significa feito na lama, porque esta tradição milenar de tecelagem desenha com lama os motivos geométricos sobre o tecido. Antes de ser desenhado, o tecido é banhado com um mordente à base de folhas e cascas de árvores.
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iStock-172947405 Produção de um tecido Bogolan (Crédito:AM29/iStock)

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Depois de secos os desenhos, o tecido é lavado para retirar a lama e é exposto ao sol pela terceira vez, quando a cor dos desenhos geométricos se revela já impregnada no tecido.

Esta lama é retirada do lodo do fundo dos poços, durante a seca, e é fermentada em jarros antes de estar pronta para pintar os tecidos.
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iStock-1192717967 Modelo de padronagem Bogolan (Criador: Komarova Anastasiia /iStockphoto)

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A milênios a tradição da tecelagem e a qualidade dos tecidos de um povo traduz a reputação da sua cultura perante os outros povos. Vale registrar que ainda hoje, o Mali é o segundo maior produtor de algodão do mundo, atrás apenas de outro país africano, o Egito.
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Kente

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O tecido Kente é uma tradição dos povos Ashanti de Gana do grupo étnico Akan, organizados numa confederação de estados governados por um chefe, um rei, que por sua vez, é subordinado ao rei supremo da nação, o Asantehene.

Estreitas faixas de algodão e seda tecidas em teares portáteis, são costuradas verticalmente para produzir o tecido, cuja largura tem um padrão para homens de 24 tiras e outro para mulheres, de 14 tiras.
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iStock-157995068 A singular beleza das coloridas padronagens do tecido Kente (Crédito:Africanway/iStock)

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Suas cores tradicionais são azul, verde, vermelho e magenta com destaque especial para o amarelo. Outra característica marcante do Kente são suas figuras geométricas, formadas pelos fios coloridos trançados na trama e urdume do tecido.

São figuras de plantas, animais ou objetos cotidianos, além de temas abstratos como riqueza, paz e bem estar e até motivos desenhados para simbolizar eventos e ocasiões importantes.
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394147134_37f7f07a30_w Até os dias de hoje lideranças de Gana usam os tecidos Kente em seus trajes (creditos: retlaw snellac/Flickr)

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No entanto, é importante também destacar que historicamente o kente é um símbolo de realeza e suas estampas são feitas para representar a hierarquia social de governantes, reis, rainhas, artistas e pessoas importantes.

Portanto, independente de suas estampas se referirem a eventos rituais ou sociais, motivos da natureza ou da vida cotidiana, o uso do kente deve respeitar o protocolo social de quem pode vesti-lo e de quando é adequado usá-lo.
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Adinkra

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A história do tecido Adinkra ilustra muito bem a importância de objetos e tecidos na representação da hierarquia de poder nas nações africanas.

Conta a história que um rei do estado Adinkra da nação Ashanti, teve a audácia de copiar o gwa, banco real do Asantehene, o rei supremo de todos os estados da nação.

Por causa disso o Asantehene Osei Bonsu venceu uma guerra contra o rei Kofi Adinkra de Gyanman e dominou a arte dos adinkra, principalmente a sua ancestral simbologia, que passa a ser uma tradição do grupo étnico Akan.
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iStock-1030202460 Carimbos com os símbolos Adinkra (Crédito:atosan/iStock)

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A simbologia Adinkra é tão rica que seus símbolos representam ideias abstratas com valores morais, provérbios, as qualidades de seus heróis e os eventos da história oral desta cultura ancestral.

Resumindo, são chamados Adinkra tecidos estampados com esta simbologia, respeitados pela tradição de seus significados, que são usados para dar distinção às características e qualidades de uma pessoa honrada pela comunidade.

Por tudo isso, os Adinkras são presenteados para homenagear a pessoa em vida e na morte e são também usados pelas outras pessoas presentes nestas homenagens festivas e fúnebres para o homenageado.
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iStock-1161015705 O símbolo Sankofa nas cores panafricanas (Crédito:tatadonets/iStock)

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Um dos símbolos Adinkra mais populares é o Sankofa. Ele simboliza o aprendizado, as lições que o passado traz para vivermos a vida no presente e planejar o futuro. Trata-se do desenho de um pássaro olhando para trás.

Talvez por isso, Sankofa foi o nome escolhido pelo coletivo brasileiro Pretos na Moda para representar seu projeto de inclusão social e racial neste ecossistema produtivo.

Lívia Monteiro

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Akunitan

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A palavra Akunitan significa pano dos notáveis! Este tecido também é uma tradição dos povos Ashanti de Gana, usado pela realeza.

O que caracteriza o Akunitan são os bordados e apliques feitos sobre o tecido. A técnica dos bordados ricamente decorados, com fios dourados sobre cores sóbrias e apliques de tecidos raros e nobres é importante na distinção social que um Akunitan representa.

Mas a narrativa das imagens é ainda mais importante. As figuras bordadas em um Akunitan narram histórias da ancestralidade do povo. Registram princípios de sabedoria, provérbios, mitos e rituais.
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akunitanpeq Apliques do tecido akunitan (Créditos: Cláudio Zeiger - Tecido Akunitan)

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Sobre estes tecidos há registros históricos importatísimos por sua unicidade e por seu conteúdo extraordinário para a memória da nação.

Considerado uma obra de arte pela riqueza de sua linguagem, peças de Akunitan produzidas mais recentemente são negociadas no mercado conforme a avaliação de colecionadores.

Encontramos um exemplar recente de um Akunitan de pequeno tamanho, anunciado por pouco mais de US 500 dólares. Tarefa complexa seria estimar o valor de mercado de um Akunitan histórico.

Depois de explorar um pouquinho da ancestralidade do inesgotável universo destas tradições culturais e das técnicas locais da tecelagem manual africana, o próximo texto é "Tecidos tradicionais africanos no mercado e modelos de roupas étnicas".

Vamos falar dos tecidos africanos para produzir moda no Brasil e no Mundo. Falta conhecer os tecidos Aso Oke, Adire, Kuba e os índigos africanos!

Vamos falar também de roupas étnicas africanas. Vamos conhecer a Capulana, a Agbada, os panos de Cabo Verde, o saruel, os turbantes e até o Asafo que pode ser aplicado em roupas e acessórios.

Enfim, vamos às pesquisas úteis à produção de uma coleção!
Não perca o próximo epsódio!

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Confira também o primeiro texto da série "Moda Afro - a influencia cultural africana na moda brasileira".

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Criadora do Modacad. Responsável pelo desenho de modelagem para vários tipos de corpo.